quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O capoeira

(Sebastião Salgado)

- Qué apanhá sordado?
- O quê?
- Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada.

(Oswald de Andrade)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A criança que fui chora na estrada


A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.


(F. Pessoa)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

e Neruda rasgou o verbo





Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos...
Frente a frente...
...Sempre...

A se olharem...
Pensar talvez: “Paralelos que se encontram no infinito...”

No entanto, sós, por enquanto.
Eternamente dois apenas. (Pablo Neruda)

domingo, 25 de outubro de 2009


...é sem palavras mesmo...
como uma saliva, de cheiro aconchegante
um abraço achado
e um por-dizer carregado e suave
uma brisa no rosto
e um leve calor...





sabe como? Não me entendo, não saberei explicar mais do que isso...
já cuidou de alguém à distância?

não?
mais ainda...: foi cuidado?

se não... não vivestes...
mas ainda há tempo

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Antes o ódio de amar que a felicidade de mágoa.

Espremer a imperfeição, colher teu suplício cego.

Nadar no crepúsculo hediondo de seu olhar.

Antes contorcido na ação

Sentir as costelas delimitarem o pulmão exausto

Admirar o pecado senhora, como se admira um sorriso de

Criança

Correr com a malícia de nossos pequenos nas veias

Sermos felizes com o mais terrível e perigoso amor ao mundo

Ter a lucidez dos doentes e a leveza de quem se foi

Abraçar a existência e seja o que quisermos

terça-feira, 20 de outubro de 2009

"A Terra é redonda porque eu vi"


O avião russo Ilyushin faz movimentos em forma de parábola, fazendo com que os tripulantes experimentem uma sensação de gravidade zero. Não sei precisar a que altitude ele alcança...
Mas é o suficiente para poder observar a curvatura da Terra.

Lembro-me de que um professor de física disse que gastou enorme quantia para andar neste avião- ele foi à Rússia para isso. A princípio todos acharam que era uma loucura... tamanha cifra -não me recordo quanto- para um "passeio".

Mas ao ouvi-lo dizer com tamanha paixão: "a Terra é redonda porque eu vi! Não me contaram... não teve que fazer sentido. Eu vi a curva dela. Eu vi, com os meus olhos!"

Eu o compreendi...

Às vezes é necessário descansar o córtex imaginativo.... e lançar o presente impresso, de maneira direta no hipocampo, e reverberar por todo o corpo. É nas vísceras que somos sinceros. Na arritmia. Não se pode mentir nem a si mesmo assim.

E talvez, também por isso eu quero ir ao Kilimanjaro. As neves eternas têm prazo de validade curto agora... Posto que este planeta é chama. Mas que seja infinita enquanto dure em minha boca. Isso mesmo. Quero comer a neve do Kilimanjaro. E quero assim poder dizer aos meus filhos: "havia neve na Africa, e não me contaram... Eu a comi. Havia porque eu comi."