(Sebastião Salgado)- Qué apanhá sordado?
- O quê?
- Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada.
(Sebastião Salgado)
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.
(F. Pessoa)



Antes o ódio de amar que a felicidade de mágoa.
Espremer a imperfeição, colher teu suplício cego.
Nadar no crepúsculo hediondo de seu olhar.
Antes contorcido na ação
Sentir as costelas delimitarem o pulmão exausto
Admirar o pecado senhora, como se admira um sorriso de
Criança
Correr com a malícia de nossos pequenos nas veias
Sermos felizes com o mais terrível e perigoso amor ao mundo
Ter a lucidez dos doentes e a leveza de quem se foi
Abraçar a existência e seja o que quisermos
